Mais um
Na organização social adotada pela grandiosa
maioria das nações do mundo inteiro, quando o poderoso opressor tem o comando
de tudo, ter títulos, diplomas, pós e doutorado e ainda ter competência,
desempenho, saúde, disposição e vontade significa absolutamente que o oprimido
é apenas MAIS UM.
MAIS UM chega com seu currículo, ganha a concorrência do emprego, estofa o peito de tanto
elogio, toma posse e fica. Imagina-se importante, desdobra-se em horas extras,
procura agradar em tudo e agrada mesmo. É campeão de honestidade, só que não
enxerga que é e será sempre MAIS UM.
MAIS UM passa a vida inteira trabalhando
como se estivesse conquistando amizade, consideração e simpatia do opressor e,
justamente, na hora em que sente o frágil corpo dando os primeiros sinais de
cansaço e não consegue mais corresponder ao desafio desumano que lhe impõem,
ousa questionar atenção, mas descobre, finalmente, que é apenas MAIS UM.
Começa a dura batalha entre o ego ferido de
sonhador retumbante e a dura realidade, porque aí vêm as chantagens:
- Não, você não pode nos deixar, você é
importantíssimo para nós, jamais poderemos perdê-lo.
Imediatamente, providências são tomadas para
que se melhorem as refeições servidas na empresa, mais ar refrigerado, poltrona
macia e giratória, banheiros com “bom ar”, vale transporte.
- Afinal de contas, um bom empregado dá
lucro nos negócios, vamos investir no seu conforto. Assim ele passará anos e
anos metido aqui dentro e nem vai lembrar de mais nada.
MAIS UM fica feliz, porque pensa que estão
descobrindo seus valores e nem vê que a máquina morrível de seu corpo foi aquecida para produzir mais. O salário
continua o mesmo, a cobrança é cada vez maior, entre
sorrisos e abraços, no corredor. Comprometido com tantas “gentilezas”,
afunda-se com a terrível carga, esgota-se.
O tempo passa e as riquezas se amontoam. É
poderio, “onipotência”, exploração e quem é pobre fica mais pobre. Nas reuniões
esporádicas da diretoria, acumulam-se reclamações, reclamam de tudo e como
ninguém é de ferro, partem os principais para a Europa, vão descansar do stress.
MAIS UM parte para o
cemitério. Foi realmente descansar e nunca vai saber que, de agora em diante,
ele é contado somente como MENOS UM.
Ivone
Boechat